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As Plantas Sentem Dor?

Por: Camila Gomes Victorino



Não há razões adaptativas que sugiram que plantas
sintam dor. Fonte: BBSpot
Algumas vezes os veganos e vegetarianos são vítimas de provocações a respeito do direito das plantas. Assim, muitas pessoas que comem carne alegam que os vegetais (e principalmente as alfaces) também sentem dor e que os vegetarianos e veganos não são tão melhores do que eles, pois estão matando e causando sofrimento, da mesma maneira que eles causam.
Este argumento é bastante infundado cientificamente, mas parece ter bastante força, principalmente para quem come carne. Ele serve como uma auto-justificativa de que está tudo bem e de que a escolha pelo churrasco não é anti-ética e apenas uma necessidade para sobreviver. Isso pode afagar o ego das pessoas, mas mesmo que as plantas sentissem algum tipo de sofrimento quando são mortas é de se pensar que o argumento ainda assim é infundado por uma simples questão matemática: se ambas as plantas e os animais sofrem ao serem mortos para alimentação, comer plantas ainda sim é menos danoso, já que para comer animais é preciso, da mesma maneira, matar plantas para alimentá-los. Ou seja, quando se come animais se mata duas vezes mais e se causa duas vezes mais sofrimento do que quando se come diretamente a planta.
Mas, claro que este argumento vem em último caso: no caso das plantas sentirem realmente algum tipo de sofrimento. Este é o caso?

Plantas não têm neurônios, o que não quer dizer que
tenham outro tipo de células que desempenhe esta
função. Fonte: WadsWorth
Vamos começar pensando sobre o que é dor. Dor é uma reação negativa gerada pelo sistema nervoso do organismo, em relação a algum evento, objeto ou substância que esteja danificando algum tecido. Esta reação tem a função de ajudar o organismo a associar a sensação desprazerosa à substância ou evento nocivo, gerando um aprendizado e evitando que a aproximação do indivíduo para junto da substância ocorra novamente, podendo levar à morte do animal. É importante lembrar que o conceito de dor está mais ligado à sensação negativa do que ao reflexo motor de afastamento do objeto, ou seja, seria possível existir reflexo sem sensação negativa (tirar a mão do fogo como um auto-reflexo), mas neste caso, porém, não ocorrerá aprendizado, pois não haverá associação entre o estímulo que danifica (fogo) e a sensação ruim. Ou seja, a dor é muito importante, pois evita que repitamos o ato de se aproximar de objetos, substâncias e ocasiões potencialmente perigosas para a vida.

Resposta: nós defendemos!
Fonte: VeganaGente
É preciso um sistema nervoso para que haja dor? Bem, é preciso que exista alguma rede de células que consiga capturar a informação de que o tecido está sendo danificado. No ser humano, por exemplo, existem neurônios especializados em gerar impulsos (ou potenciais de ação, tecnicamente falando) somente quando há dano no tecido. Em seguida, é preciso que a informação vá para uma rede central de neurônios que possa associar esta informação de dano a uma sensação desprazerosa – que pode ser a diminuição de substâncias que geram prazer ou que mantenham o corpo em equilíbrio (chamadas de neurotransmissores). É preciso que a resposta de associação seja imediata e que uma resposta de afastamento (reflexo de tirar a mão do fogo, por exemplo) ocorra.
Claro que tudo está muito resumido, mas é necessário entender que é preciso ocorrer comunicação entre o ambiente externo e interno do organismo, gerando respostas de afastamento motor (movimento), emoções (medo - aumento da frequência cardíaca, por exemplo), sensação negativa de incômodo e associação desta sensação com o objeto danoso, gerando aprendizado.

Plantas podem se comunicar entre si, mas desenvolveram
outros tipos de resposta para lidar com o ambiente,
diferentes da dor. Fonte: Iwonder
Em primeiro lugar a função de comunicação não deve ocorrer necessariamente através de neurônios, ou seja, apesar das plantas não terem neurônios é bem possível que elas possuam células que comuniquem algum dano ocorrido em seu tecido. Aqui, eu falo algo que não é necessariamente cientificamente provado, mas é mais uma possibilidade filosófica, pois seria sim possível que outros tipos de células, que não neurônios, assumissem a mesma função que eles. Assim, é possível sim que exista uma espécie de rede difusa de células que comuniquem dano de tecido em plantas gerando uma resposta.
O problema é que apesar das plantas se moverem (em um ritmo quase imperceptível para nossos sentidos), a resposta que seria gerada não seria rápida suficiente para levar ao afastamento ou adaptação da planta ao agente nocivo – por exemplo, a um inseto que come suas folhas. Assim, não faz muito sentido que se tenha evoluído um sistema que gere um estímulo desagradável na planta, mas que não é eficiente, no sentido de não gerar uma resposta realmente significativa para a defesa e sobrevivência da planta.

Se queremos ajudar as plantas, um primeiro passo é comer
de maneira consciente.
Fonte: UPC
Existem alguns relatos de pseudociência (estudos que alegam ser científicos, mas que não conseguem ser devidamente validados) que alegam que as plantas sentem dor.
Um dos livros mais famosos é o “The secret life of plants”, de Peter Tompkins e Christopher Bird. Neste livro alega-se, inclusive consciência em plantas.
Eu acredito que é possível sim que exista algum tipo de sensciência em todos os reinos vegetais, minerais e animais, mas isso não é nada científico, mas apenas uma expressão do reflexo do que considero ser o universo. Se existir de fato uma conexão entre os seres vivos e não-vivos, é possível sim que todas as formas se conectem de alguma maneira, mas no que se refere à dor como conceito científico - seu significado fisiológico e seu possível papel adaptativo na seleção natural - não faz sentido que plantas sintam, de fato, dor. Se sentem algo diferente, não sei, mas dor como os animais conhecem, não sentem.

Podemos sim respeitar e amar as plantas,
mesmo que elas não sintam dor como
entendemos.
Fonte: Atributetotrees
Bem, isso não é uma justificativa para sair matando e desrespeitando a vida das plantas ou até de outras formas, como fungos, bactérias ou animais que alguns considerem possuir sistemas nervosos mais simples. O que devemos considerar é o sagrado da vida, ou para os mais céticos, o simples fato de que a vida é muito rara neste universo (pelo menos até o que sabemos). Se é assim, não existe motivo nenhum para matar e destruir qualquer criatura ou mesmo sair bravejando contra pedaços de pedra, simplesmente porque não se tem respeito a nada.
Ainda estamos longe de considerarmos a sacralidade da vida humana, de animais não humanos nem se fala, o que dirá de plantas, mas isso não é desculpa para ignorarmos seus direitos, mesmo que elas não sintam dor como nós entendemos.
No final, levando em conta a sacralidade da vida e mínimo respeito ao planeta e suas associações, sempre devemos refletir sobre nossos atos e as conseqüências para os outros seres vivos e associações de ecossistemas. Comer animais não é nenhum pouco necessário do ponto de vista biológico e, portanto, não pode ser ético de nenhuma maneira. Comer plantas, entretanto, já é uma necessidade e mantendo o respeito pela vida devemos então considerar como causar o menor dano possível ao seu direito de existência, afinal, todas as criaturas deveriam ter o direito a sua vida. Considerando isso, fica então aberta a questão sobre a mutilação que nossos hábitos vêm causando no planeta.

Até então podemos apenas concluir que os animais realmente sofrem,
enquanto que plantas nem ao menos temos certeza.
Na foto: "Se você usar o argumento de que plantas sentem dor,
na defesa de comer animais, BINGO! Você cometeu a falácia ad plantarum.
Você perde! Obrigado por jogar".
Fonte: Indipepper
Ser vegano é muito ético, mas nem todo vegano considera o boicote aos transgênicos, aos agrotóxicos, ao óleo de palma, à poluição ambiental que seus hábitos vegetarianos podem causar se não realizados de maneira consciente. Assim, vamos tentar expandir o veganismo para algo ainda mais global, em que a vida e o equilíbrio dos ecossistemas seja também colocado em questão.
No fim, acredito que o veganismo seja apenas o passo inicial e de resto, falar de alfaces que choram e de legumes assassinados ainda não apaga o sangue, o terror e o genocídio que a gula da nossa sociedade faz com os animais. Vamos lembrar sempre disso: é pouco provável que as plantas sintam dor como a conhecemos, mas é totalmente provado cientificamente que os animais - que não temos necessidade de matar e torturar - sentem dor, medo e pavor, por isso, vamos dar um basta à violência que causamos!

Paz!

Observação: de um ponto de vista filosófico não existe verdade absoluta, portanto existe uma pequena probabilidade de que plantas sintam dor, afinal existe também a possibilidade de que a teoria da evolução não esteja correta. Apesar disso, a probabilidade de que ela esteja correta e de que não faça sentido que plantas sintam dor é muito alta, portanto dei um peso maior a esta hipótese do que a outra, em que teria que desconsiderar o peso da seleção natural.

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15 comentários :

  1. você já pesquisou sobre o Sir Jagadis Chandra Bose
    http://oextensionista.blogspot.com.br/2013/02/as-emocoes-das-plantas.html#.U7Cqo_ldXT8

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  2. Dá uma lida nessa matéria
    http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-92/questoes-botanicas/a-planta-inteligente

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  3. Oi Camila.
    Adorei o blog! Nao imagina como.
    Seus levantamentos filosóficos são otimos, gostei principalmente quando voce disse
    quando se come animais se mata duas vezes mais e se causa duas vezes mais sofrimento do que quando se come diretamente a planta.
    Continue com o blog tem me ajudado bastante e tenho certeza que tambem esta ajudando outras pessoas que pensam em aderir ao veganismo.

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    1. Gratidão, Vany! Ajuda muito saber que as pessoas refletem e gostam dos textos. Paz!

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  4. http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/a-inteligencia-das-plantas-revelada

    http://www.megacurioso.com.br/biologia/44796-plantas-podem-ouvir-enquanto-estao-sendo-comidas.htm

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  5. Em primeiro lugar gostaria de te agradecer!!! Suas materias sao simplesmente maravilhosas!!! Tem me ajudado muito na minha escalada no veganismo!!! As pessoas nos criticam, apontam o dedo, na menor falha. Por isso precisamos ficar informados, nao para jactarmos, mas sim para tambem ajuda-los a entender nossa escolha etica e moral.Obrigada!!!

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    1. Gratidão, Rosângela! Seu comentário me incentiva a continuar escrevendo mais e mais! Paz!

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  6. Estou extremamente agradecida por esta matéria.
    Camila, deveria existir mais pessoas como você no mundo!

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  7. As plantas realmente sentem de forma diferente.. não com dor mas sentem.
    É um desprazer assim como dor é um desprazer animal.

    A vida é assim.. "cruel".. isso é natural.. é simples.. ainda que fosse diferente pra ambos os "lados" (carnívoros e vegetarianos) o leão não comerá plantas.. não importa se ele não tem "consciência" disso.. é da natureza de todos nós.. até da planta carnívora.. não vou contra o natural devido ao que é correto definido pela lógica humana.. seria mais bonito dizer: como somente vegetais porque sim ou porque quero.. assim como pessoas comem carne porque sim ou porque querem.. sem julgamento.. sem hipocrisia e sem puxar a sardinha pro lado de quem seja e ponto.

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    Respostas
    1. Racoon, o modo como você vê a vida depende totalmente de você. Vê-la de maneira cruel é uma escolha que você faz, baseada nas suas experiências de vida. O conceito do que é a vida é puramente arbitrário e não tem nada de absoluto e científico. Aliás, apesar da seleção natural Darwiniana ser vista como cruel, isto foi apenas fruto das mentes que a interpretaram, tanto é que a importância da cooperação na teoria da seleção natural foi praticamente ignorada por um longo tempo, mesmo tendo Darwin enfatizado a questão. Ou seja, justificar seu paladar (ou de qualquer outro carnívoro) com base na visão de vida cruel, é apenas uma escolha que você faz e, reitero, uma escolha que você fez para justificar sua ação alimentar injustificada em termos fisiológicos. Para mim, não há vida cruel, mas ações crueis ou não. Comer um animal sem necessidade fisiológica alguma (e realmente não há, a não ser que você acredite que está falando com um fantasma) é cruel e usar de argumentos de que a vida é cruel para justificar a superioridade do paladar à vida de outros seres é também cruel, porém, tendo em vista que ainda não nos alimentamos de luz, comer uma planta que, aparentemente, sente bem menos do que um animal, que não grita, que não olha, me parece menos cruel, afinal, aí sim, fisiologicamente falando, nós temos a necessidade de comê-las. Já o animal e seus derivados, não há necessidade fisiológica alguma e, aí sim, poderia falar de crueldade, já que neste caso, tirar a vida e torturar não tem nenhuma justificativa científica e fisiológica. Por fim, ou os leões agora falam e você é um leão tentando se comunicar comigo ou você é um humano que se acha um leão (o que não faz de você um leão, obviamente). Desde quando leões são como humanos, do ponto de vista fisiológico e nutricional? Leões comem animais por necessidade fisiológica. Isto não é cruel, é uma lei natural. Humanos comem animais por prazer e sem necessidade. Há aí uma diferença bem clara. Por fim, assim como um crime de legítima defesa pode ser justificado, obviamente que eu poderia justificar alguém que come animais por necessidade, mas comer e torturar animais não é necessário e portanto isso se transforma em assassinato e deve sim ser julgado como tal. Nesta sociedade em que um humano vale bem mais do que o seu próprio planeta, matar um animal é um assassinato que pode ser justificado pela sociedade e, aí, dizem, como você, que não devemos julgar. Ora, muitos dizem que não se deve julgar o estupro em países do Oriente Médio, mas isso não descredita o estupro como crime. Assim, puxo sardinha, ou melhor, abraço a sardinha, para o veganismo sim, porque sou contra a violência injustificada. Quem está do outro lado ou é ignorante ou é a favor da violência. Basta ou adimitir a consequência de sua escolha e saber que isso estimula uma sociedade violenta ou tentar diminuir a ignorância e ir além.

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    2. Quem prioriza a compaixão entende perfeitamente que animais não nasceram para ser torturados, mortos e comidos porque as opções são tantas que impossível será provar, em uma vida apenas, de todas as espécimes vegetais que existem no Planeta. Quem prioriza amor a todas as espécies, não apenas ao totó ou gatinho de estimação, compreende que dor é dor, nos animais como em nós e morte será sempre morte, seja em nossos filhos ou nos filhos dos animais. Se alimentação carnívora sempre existiu, já tá na hora de acabar, assim como acabou a Escravidão de Homens Negros, a Inquisição e o Holocausto. Quem não percebe as luzes deste Novo Dia, vai continuar dormindo ou vegetando, porque escolheu não ser nem racional e nem superior.

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  8. Existe uma diferença muito grande em picar uma couve para o almôço e picar restos mortais de um animal para sepultá-los no próprio estomago em forma de churrasco. Sou vegana, respeito a natureza mas não dispenso as plantas, frutas, grãos e cereais do meu cardápio por enquanto porque ainda não alcancei a angelitude para me alimentar apenas de luz.

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  9. Olá, queria compartilhar de um pensamento.
    Primeiro, queria deixar claro que compactuo com o vegetarianismo, mesmo que só em ideologia, infelizmente.
    Mas, como os alfascistas, também levanto questões sobre o valor da vida vegetal em comparação a animal.
    Quando penso no tema, levo em consideração que a senciência ,que é o que separa os animais dos vegetais, representa um estado de complexidade biológica, no qual os animais estão suscetíveis aos "sentimentos"(pois é válido dizer, a menos de uma crença em espíritos ou em uma consciência livre as casualidade, que os sentimentos são formas mais complexas e elaboradas de se tratar os sentidos, que são a nossa entrada de informação do mundo exterior. E que ganharam tal complexidade devido suas vantagens). Dessa forma, aceitamos que uma certa complexidade é mais valiosa que outra, baseando-se nas nossas capacidades sensitivas, ou seja, pelo fato de termos reações ao mundo exterior mais próximas dos animais os damos mais valor por darmos mais valor o semelhante, porém sem justificativa, pois o argumento da complexidade é arbitrário, assim como quase tudo o que definimos.
    Partindo disso, a senciência não seria mais uma justificativa plausível a se discutir devida a sua natureza arbitrária, mas isso ainda não implica em certos ou errados, a penas que isso não é um bom parâmetro. Indo além, em muitas reflexões pessoais, nunca fui capaz de chegar a um bom parâmetro, pois não enxergo distinções reais entre eles, o que me leva a concluir não é possível tachar com valores formas de vida e que o peso da morte de uma planta é igual a de um ser humano ou animal, pois a vida não se torna mais ou menos valiosa por sua complexidade.
    Então, por fim, nossa vida é baseada e sustentada em mortes de forma quase que inevitável, porém podemos buscar novas formas para diminuir ou extinguir isso. Penso que se o ser humano, em vida, deva fazer algo é minimizar a necessidade de mortes para sua existência devido a sua consciência e que, em algum momento, seremos capazes, se buscarmos, de não mais precisar.

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