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Alan Turing não morreu em vão - e nem eles

Por: Camila Gomes Victorino


Alan Turing, pai da inteligência artificial é considerado um dos maiores gênios do século XX. Ele foi o teórico por trás do conceito de máquina de Turing, formalizando também o conceito de algoritmo (ambos essenciais para o desenvolvimento do computador moderno).

Alan Turing: gênio a frente de seu tempo e destruído pela
intolerância de sua época

Evidentemente, apesar do trabalho de Turing ser imensamente importante, este texto não tem por missão falar sobre suas teorias, mas sobre o próprio Turing. Ouvindo um programa de rádio ontem percebi como a ignorância humana cria a sua própria forca, a qual levará a humanidade a um completo abismo. Assim nada melhor do que a história de vida deste grande gênio para exemplificar esta lição.



Para começar, Alan Turing, além de matemático e grande cientista, era também homossexual. Hoje, esta informação seria extremamente irrelevante*, porém na Inglaterra de sua época, homossexualismo era considerado crime e homossexuais descobertos eram condenados à prisão.

Não se sabe exatamente como, mas Turing foi descoberto por isso e preso e, para piorar, foi obrigado a receber doses hormonais, que na época, eram consideradas como fonte da virilidade. Eu fico imaginando a cena em que obrigam alguém a usar hormônios da “masculinidade”, sentar uma pessoa na cadeira, acorrentá-la e injetar hormônios, anotando os resultados e até parece teoria da conspiração ou um filme de ficção científica (lembrando o clássico de Stanley Kubrick, “Laranja Mecânica”), mas infelizmente, a história de Turing não foi apenas fruto da imaginação de um escritor ou roteirista, mas era rotina no começo do século XX.

Realidade ou Ficção?
Fonte foto: http://cdn.collider.com
Após sua condenação, o corpo de Turing começou a apresentar uma série de doenças e seu intelecto nunca mais foi o mesmo. Não se sabe exatamente o motivo, mas após certo período, Turing cometeu suicídio. Obviamente que é provável que ele tenha se matado devido ao terrível destino que a opressão humana lhe impôs.

Se Turing não tivesse morrido, possivelmente o ramo
da inteligência artificial estaria mais avançado.

Se Turing não tivesse morrido e nem sofrido como sofreu, imagino que hoje estaríamos em outro patamar da computação. Ele era um gênio e com suas ideias geniais teria possivelmente levado a descobertas novas ou antecipado descobertas atuais. De fato, sabe-se que ele deixou muitos trabalhos incompletos.
Se sua morte foi uma grande perda para a humanidade, pelo menos Turing nos apontou para um problema terrível de sua época e que repercute até hoje: o ódio ao diferente.
Não é o primeiro exemplo de pessoa morta por uma opção diferente de vida: mulheres foram cruelmente mortas pela Inquisição por não concordarem com a imposição machista da época; sabemos do caso de Malala Youssef, que levou um tiro, por querer dar o direito ao estudo para as meninas de seu país e vemos todos os dias nos jornais, homossexuais sendo linchados. Por fim, como se isto não bastasse somos nós os opressores do dia a dia,, contando piadinhas de mulher, gays e grupos diferentes (até de Emos existe) simplesmente porque a humanidade não consegue lidar com aquilo que lhe é diferente – principalmente quando relacionado a sexo.


Turing foi um grande gênio e sua perda nos dói no coração a cada dia que passa. Dói não porque mais um gênio deixou a Terra, mas dói porque sua morte é no mínimo vergonhosa, fruto da ignorância, da intolerância e da repugnância à liberdade do outro, que não só o governo inglês e outros governos da época tinham, mas também nós mesmos temos - escondidos nos mais recônditos espaços de nossa mente.
Não vamos deixar que a morte de Turing seja em vão! Vamos lembrar e contar a sua história para que as pessoas comecem a refletir sobre si mesmas, sobre seus comportamentos para com o outro, sobre suas vaidades mesquinhas e por fim, sobre o ódio que vamos criando, um ódio que leva ao cúmulo de se drogar e modificar partes do cérebro de pessoas, que consideramos pouco normais, simplesmente porque não são parecidas conosco.

Turing não foi o único exemplo de intolerância na história,
principalmente quando se refere à coerção sexual. Fonte:
Coven Digital
Por fim, parece ridículo pensar que uma pontinha de ódio de uma piada bem rascista, homofóbica, sexista, “emoista” etc possa gerar comportamentos tão medonhos como o fato de drogar alguém. De fato, este tipo de condenação era um plano do governo, mas um governo existe porque pessoas concordam com ele. É fato que plantar uma semente não criará uma floresta, mas muitas pessoas disseminando sementes faz com que, em certo espaço de tempo, o deserto realmente se transforme em uma selva. Sendo assim, policiar é preciso!
Não vamos só pensar em Turing. Ele foi um grande gênio, que por ser conhecido nos fez lembrar de sua trágica história. Vamos, por outro lado, refletir sobre quantas pessoas geniais e exemplares não estariam vivas ou não teriam deixado sua contribuição se o ódio e o preconceito não as tivessem matado ou mutilado física ou psicologicamente.
“Viva e deixe viver” e tenho certeza de que quando acabar o preconceito boa parte das mentes, prisioneiras dos tabus, poderá se libertar e libertando-se libertará boa parte da humanidade.

Nota: Foi lançado, recentemente, um filme sobre Alan Turing "O Jogo da Imitação - Filme 2014".

*Nota atual de junho 2016 - Eu me comovo todos os dias com as notícias. Mal saímos de estupros coletivos, justificativas esdrúxulas, um terrível assassinato de uma mulher no Chile, um estupro na faculdade de Stanford e, então, vemos a terível notícia do assassinato de mais de 50 pessoas, mortas por sua orientação sexual nos EUA. Ainda há muito, muito, muito o que fazer. A opressão contra mulheres e LGBTs é uma grande arma do sistema patriarcal, que quer manter no poder homens cis, brancos e de preferência nascidos em países de "Primeiro mundo" e na classe "dominante". Não podemos nos calar. Eram todos Turings, eram todas e todos almas maravilhosas com um propósito incrível neste planeta. Não podemos deixar passar mais. Não podemos mais ficar caladas e calados. 


Luto e por isso luto

Fonte das imagens: Pixabay




Autora: Camila Gomes Victorino


 Pensando ao contrário





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7 comentários :


  1. Oi Camila,

    De fato o Turing pode (e é) considerado um dos pais da computação(charles babage seria o outro) e sua importancia para a matematica é inquestionavel. Mas como é costume eu quero te provocar um pouco e trazer uma outra reflexão.

    O que você acha que motivou o Turing a formalizar a ideia de algoritmo? Ou quando ele pensava(e ele foi o precursor) no que mais tarde seria um automato celular qual você acha que era seu objetivo?

    O seu texto usa o exemplo a historia do Turing como exemplo dos males da intolerancia e ódio. Mas e se o próprio Turing fosse uma pessoa intolerante? A ideia da máquina de turing que nada mais é do que uma abstração do computador que usamos para escrever esse texto, nasceu de uma necessidade de guerra! O próprio turing trabalhou para o exercito ingles durante a segunda guerra no departamento de criptografia. Nesse sentido a morte do Turing é ironica porque, como vc disse, ele foi perseguido por uma inglaterra homofóbica DEPOIS de lutar contra uma alemanha homofóbica...

    Com isso eu quero dizer que o fato de o Turing ter sido perseguido, ter sofrido castração quimica e ser violentado não fez dele menos humano. Ele era capaz de odiar e de ser intolerante, tanto quanto aqueles que o perseguiram. Ele mesmo perseguiu pessoas (de certa forma) ao longo da vida dele.

    Muita coisa na ciência nasce do ódio e da intolerância. Estou usando o Turing pq você escreveu um post dedicado a ele. Mas eu poderia facilmente elencar outras descobertas matemáticas MUITO importantes, que mudaram nossas vidas(para melhor incusive) e que nasceram na guerra ou com o ódio ao próximo. Isso na minha opnião acontece porque somos seres completos e complexos. Amamos E odiamos. De certa forma seu blog prega uma espécie de ditadura do amor onde o ódio é visto como um fator a ser banido a todo custo da humanidade. Isso nã me parece saudável. Sem o ódio deixamos de ser humanos. Odiar ou ter raiva é tao natural quanto amar. Claro que esse ódio(assim como o amor) pode e deve conhecer limites mas não acho prudente querer simplesmente elimina-lo.

    Tiago

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  2. Olá Tiago! O objetivo do meu texto não foi julgar o que era Turing, mas falar sobre o problema da intolerância, que infelizmente destrói grande parte da genialidade de muitas pessoas no mundo. Turing é um exemplo porque ele é conhecido. Milhares de pessoas sofreram castração química em sua época e muitas, imagino, eram melhores que ele, porém o meu foco aqui não foi a pessoa em si do Turing, mas apontar, através de sua tragédia, para os limites que a intolerância pode ter.
    Sobre a ditadura do amor. Esta frase me parece um paradoxo porque não é possível amar (e estou falando do verdadeiro amor e não da paixão) e ao mesmo tempo obrigar alguém a amar. Quando se obriga, já não é amor, ou seja, não é possível, logicamente falando, desenvolver uma ditadura do amor.
    Eu entendo que a natureza humana seja repleta de paixões, como você mesmo disse: ódio, ira, luxúria, amor etc, mas eu não acho que nossa natureza primitiva seja um empecilho para que nos desenvolvamos ainda mais. O que somos hoje não é o que éramos no passado porque trabalhamos a nossa natureza para sermos melhores (Se você for para o Talibã, eles terão outra noção do que é ser humano, possivelmente um ser mais bélico e com características repressoras do feminino; aqui nós somos diferentes porque construímos o nosso conceito de ser humano - vide filósofos iluministas).
    Se você me disser que é impossível sair do eu humano raivoso, bélico, que ama e que odeia, tudo bem, mas vendo como diferentes culturas se comportam posso admitir que algumas são mais amáveis do que outras e meu blog tem o objetivo, justamente, de levar o ser humano ao máximo da sua amabilidade.
    Se existir um máximo, paciência; se não existir, melhor ainda: poderíamos até ir além de nós mesmos e nos tornarmos algo além do que é humano, mas isso é outra discussão.
    De qualquer jeito, o blog é uma iniciativa de apontamento de um comportamento, quem não quiser seguir tudo ou achar que prefere continuar irado em determinada situação, tudo bem, porque amar é algo que vem da pessoa, se ela ainda não se sente pronta, sem problemas, afinal viva o livre arbítrio, não é?
    ps; achei legal que você leu o texto e comentou. Imaginei que iria ler porque falava do Turing kkk!

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  3. "Sendo assim, policiar é preciso!"
    Não sei se voce usou a frase de forma irônica ou sarcástica, mas eu mudaria para: "Sendo assim, ficar atento é preciso".
    Turing sofreu justamente por causa do "policiamento", e encerrar o belo texto com uma palavra que remete à opressão, ao meu ver destoou um pouco.

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  4. Camila,

    Não resistir e venho até aqui para parabenizar o excelente texto e excelente resposta ao Tiago.
    Pois é exatamente o que vc falou, o objetivo é ir além do que nós definimos humano. Pois se a humanidade não mudar completamente seu modo de agir, não existiremos mais nesse planeta. Nosso tempo é curto e precisamos mais do que nunca ir além do que definimos como humano!

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  5. O texto está ótimo,porém o termo homossexualismo já não é mais usado e ser gay,lésbica ,trans etc não é uma opção.
    Enfim,adoro o teu blog.
    Abraço

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  6. Muito legal a reflexão, e a repercussão (resposta do Thiago). Infelizmente, essas questões estão muito latentes na sociedade atual, ignorância e muito apelo sexual também. Na verdade, além de precisarmos ter humanidade para aceitar as diferenças, quaisquer que sejam, não somente quando a opção sexual, mas também sobre ideologias e etc, vivemos um momento de muito apelo sexual. Parece que a humanidade ainda não sabe lidar com a sexualidade. Não somente com as opções alheias, mas também com a própria sexualidade, e em muitos momentos, há tantos conflitos e dúvidas. Busca excessiva por forma física, muita exibição de corpo... Enfim.. Há muito o q amadurecer. A reflexão é importantíssima! Parabéns pelo blog, estou adorando!! Mariana.

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