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Reflexões Sobre Um Veganismo Capitalista

Por: Camila Gomes Victorino

Um veganismo com capitalismo só pode ajudar ao capitalismo e nada mais

Na foto: Nós nunca seremos sãos em um sistema insano. Fonte: SarahRHarris
Veganismo é um movimento que usa a mudança dos hábitos de consumo para fazer valer os direitos dos animais, mas não é só hábito de consumo que faz um veganx. De fato, ser veganx ativista vai além de boicotar produtos de origem animal, pois só isso, infelizmente, não basta! Na realidade, mais do que o boicote, é preciso que outras ações políticas, como passeatas, atos e abaixo-assinados sejam criados e é preciso dispersar outras formas de justiça entre seres humanos, afinal exploração animal tem total relação com exploração humana.
Assim, ser veganx é ser ativista, pois o veganx que apenas se resume ao boicote de produtos de origem animal acaba por se estagnar e não conseguir regredir as ferramentas de opressão que a  própria sociedade atual usa para com os seres vivos em geral.

Algumas pessoas se esquecem que o veganismo também é
para as pessoas. Fonte: Dawnofanewera
Evidentemente, que boicotar já é um ato bastante importante, entretanto, a limitação a este conceito de veganx “boicotista” acaba por fazer com que um novo tipo de veganx apareça nestes círculos: o chamado veganx capitalista. O veganx capitalista, para quem não sabe, é uma pessoa que aderiu ao veganismo por razões diversas, mas não compreende os meandros dos procedimentos de exploração animal usados em nossa sociedade. Assim, parte de seu comportamento se resume a deixar de boicotar empresas exploradoras, apenas porque esta oferece uma opção vegana em sua linha de produtos; chamar críticos de seu comportamento de polícia vegana; usar de palavreado homofóbico, machista e racista para descreditar outros grupos ou dissidentes e se resumir ao boicote de produtos de origem animal, quando, na realidade, outros produtos não diretamente relacionados ainda assim representam uma forma de exploração indireta do animal (inclusive humano). Por fim, o veganx capitalista costuma apoiar políticas totalitárias, agressivas e direitistas para com humanos, geralmente devido ao fato de que certo candidato, partido ou governo "beneficia" certo setor animal, mesmo que em detrimento de outro setor (o humano ou o mais geral, como ecossistemas).

Na capa: "Capitalismo consciente:
Libertando o espírito heroico
dos negócios". Este é só um exemplo de
como o capitalismo está integrando o
veganismo, assim como fez com diversos
movimentos de libertação do passado.
Bem, isso parece algo raro, mas eu resolvi escrever este texto porque estive bastante perplexa pelos meus encontros aleatórios com veganxs de direita pela internet. Minha primeira experiência surgiu quando conheci alguns veganxs favoráveis à pena de morte e uso da violência policial contra ‘infratores da lei”. Também tive a péssima experiência de cruzar com um vegano, que não gostando de minha opinião, usou-se de seu vocabulário sexista e chulo para me colocar no meu lugar de mulher e calar a boca. Evidentemente que passei por muitos outros exemplos, o que só veio a aumentar a minha preocupação para o fato de que o veganismo (que está crescendo muito) ainda não consegue saber exatamente o que seria um veganx e qual postura assumir quando a exploração indireta dos animais e a exploração direta de humanos está envolvida.
De fato, o problema de se limitar ao boicote e somente a ele é que não sabemos, por exemplo, se se considera veganx alguém que não compra os produtos de uma indústria leiteira, por exemplo, mas consome a única opção de leite de soja da companhia. Também não se sabe até que ponto se é veganx quando este/esta não tem preocupações para com o modo como o vegetal que come foi feito (transgênico / agrotóxico / orgânico), o qual, dependendo do sistema de produção, mata - aos poucos ou indiretamente - milhares de animais. Por fim, será veganx, uma pessoa que tem uma conduta misógina/sexista, homofóbica e racista ou mesmo totalitária para com alguns grupos de seres humanos (presidiários, por exemplo), mas, ao mesmo tempo não consome nada de origem animal?

O movimento vegano deve refletir sobre como o
capitalismo está tentando transformar o movimento
em um estilo de vida alternativo, destituindo-o
de seu caráter ativista. Fonte: Mexican Vegan
Bem, são muitas questões e elas são importantes porque mal ou bem, constituir um movimento vegano baseado apenas no não consumo de produtos de origem animal não possibilita abolir a violência contra os próprios animais, afinal, a vida na Terra está interligada e destruir o ecossistema do animal, mas deixá-lo vivo, é matá-lo indiretamente; ou comprar o leite de soja da companhia leiteira também o é.
Desta maneira, o movimento vegano deve começar a perceber que libertar os animais não é somente o boicote aos derivados, mas a todo sistema de exploração, pois não haverá possibilidade de libertação animal sem que se liberte o planeta inteiro.
Mas isso não é demais? Bem, infelizmente eu já tive o dissabor de encontrar algumas pessoas veganas que me demonstraram seu descontentamento com minhas idéias de boicote ao sistema, afinal, para eles, ser veganx já é muito difícil, imagine então ter que ser ativista da causa dos direitos das mulheres, dos miseráveis, do movimento negro, GLBT, boicotar transgênicos, participar dos grupos de ativismo de sementes crioulas, boicotar o último Smart Phone, andar de bicicleta, deixar de consumir nas redes de roupas de trabalho escravo chinês, boliviano e brasileiro, enfim...

Libertação animal não está dissociada de libertação humana.
Fonte: MercadoPopular
Bem, ninguém disse que a revolução iria ser fácil, mas se entramos no barco da libertação animal e se sentimos em nosso âmago que chegou a hora de libertar este planeta, é preciso também atuar em todas as esferas e, desta maneira, não é possível que exista qualquer veganismo que se identifique com o capitalismo. Claro que eu acredito ser extremamente importante a existência de empresas veganas no setor, mas é preciso sempre lembrar que o objetivo do veganismo não é trocar um supermercado multinacional norte-americano de produtos convencionais, por outro supermercado multinacional norte-americano de produtos veganos, pois por mais que os animais não estejam mais sendo assassinados aí para a alimentação, eles estarão sendo assassinadas dentro de outro contexto de exploração, sendo apagados pela sua falta de direito de habitat ou ao planeta, em geral. Além disso, a própria miséria em si continuará a assassinar pela necessidade da fome, pois não pense que o tofu será de acesso de todos em uma sociedade capitalista.

Bem, até aqui eu já deixei clara a minha posição em relação ao que é ser de fato um/uma veganx e que o veganismo não pode apenas se limitar ao consumo em si, mas antes ao anti-consumismo e ao anti-capitalismo, porém, parece sempre fácil falar no que está errado sem dar soluções cabíveis, afinal seria perfeito poder boicotar tudo, inclusive o dinheiro em si, mas quem pode fazer isso, afinal?

Soluções iniciais
Se não houver reflexão, o capitalismo enfraquecerá o movimento,
transformando-o em um estilo de vida. Fonte: Camaleão
Eu comecei esse texto falando sobre o que é ser um verdadeiro vegan engajado na luta de libertação animal e que este está intrinsecamente ligado ao anticapitalismo, porém, é preciso começar de algum lugar. O primeiro passo que devemos fazer, é evidentemente, tornar-se veganx, mas depois disso é preciso começar a conhecer os produtos/serviços/hábitos que também oprimem de forma mais direta ou indireta outros seres vivos ou ecossistemas. São eles: transgênicos, óleo de palma usado em industrializados (este provém de florestas da Indonésia, saiba mais: "Os perigos do oleo de palma"), roupas de lojas de conveniência (opte por brechós), entre outros.


Estudar nos ajuda a evitarmos ser Capital Planeta, para nos tornarmos
Capitão Planeta. Fonte: Contraditorium
Após se inteirar naquilo que oprime, é preciso analisar até que ponto tudo que se listou é boicotável, pois comprar roupa de cânhamo orgânico nem sempre está dentro do orçamento. Nisto, o próximo passo é saber, então como substituir o que não é boicotável e a solução, neste caso, é optar pela auto-suficiência, produzindo seus próprios produtos, e pelo anti-consumismo, refletindo sobre o que é realmente necessário. No caso, o site “Pensando ao contrário” dá diversas dicas de como deixar de consumir certos industrializados e mudar hábitos de pensamento opressores. Por fim, é preciso agir e refletir, através de atos, abaixo-assinados, criação de grupos, mobilização com veganxs da região, enfim. Para tal, uma dica é conhecer grupos online próximos de sua cidade ou mobilizar sua comunidade. Aqui, eu recomendo o grupo: Ativismo vegano e o grupo veganismo.

Nós decidimos! Fonte: IEQ
Por fim, é preciso dizer que estas dicas são apenas superficiais. Se quisermos mudar o modo como a engrenagem atua, é preciso sempre se modificar e expandir a sua consciência. Ser um boicotador não basta, já que o próprio capital se adapta às novas tendências de mercado, neste caso o vegano! Leia e estude sempre! É preciso entender bem como a opressão emana em nós e também na nossa sociedade. Portanto, se fiar em um veganismo "classe-mediatista", que se baseia apenas em receitas e novos produtos, não será suficiente. De fato, talvez isso seja suficiente para não nos sentirmos culpados em nosso belo apartamento, mas quem dirá o quão efetivo é este comportamento superficial para todos os animais?

Paz!



 Pensando ao contrário



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9 comentários :


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