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Por um rock n’roll mais engajado

Por: Camila Arvoredo

John Lennon e Yoko Ono durante campanha pela
paz contra a Guerra do Vietnã. Fonte: RadioCidadeJf


Eu não entendo. Definitivamente eu não entendo músicas que trabalham para a violência, a ignorância e o preconceito. Quando se ouve música, o que se sente é inspiração. Vontade de se melhorar ou melhorar algo, mas existem músicas que não fazem isso. Que apenas denigrem a imagem da mulher, reforçam o preconceito contra homossexuais, reforçam concepções de violência e assassinato.
A música em si é apenas um reflexo daquilo que é o músico e, portanto daquilo que é um indivíduo na sociedade, mas me espanta a quantidade de fãs sedentos que os seguem fidedignamente e contraditoriamente, na maioria dos casos.
Quando se fala de música ruim e que abusa de concepções de violência, lembra-se logo de imediato do funk brasileiro. Ele é um dos gêneros musicais que mais reflete a violência. Em parte, pode-se dizer que é uma forma de rebelião contra a própria violência que as classes sociais que o ouvem passam. Em parte, ele reflete a sabedoria de ensinamentos de Gandhi, Buda ou Jesus Cristo, que afirmam que a violência só pode gerar violência. Por fim, quando ouço o funk dos carros no farol, não posso deixar de lembrar de algumas afirmações do filósofo francês Michel Foucault.
Capa do livro: "A Microfísica do poder"
de Michel Foucaul. Fonte: Gambiarre
Em sua obra, “A microfísica do poder”, ele deixa claro que a violência das elites contra as classes pobres é na verdade apenas um reflexo da mesma violência cometida em vários outros setores, menores, da sociedade. Assim, a violência da corrupção não ocorre apenas nas grandes esferas do poder, mas nas escolas, nas pequenas instituições e no seio da família. Além disso, a repressão contra as classes pobres é um fato, mas com ela nota-se a repressão de uma raça sobre outra, de um indivíduo sobre outro e de um gênero sobre outro. Aliás, por que não falar de repressão de uma espécie sobre outra?
Bem, o funk nos vem na mente, mas e o rock n’roll? Quem gosta de rock, como é meu caso, sabe que este gênero musical surgiu como um ato de rebeldia. Em uma época de extensa repressão contra os negros nos Estados Unidos e contra uma série de comportamentos conservadores e repressores, muitos jovens não só começaram a se expressar através deste novo gênero, mas mudaram também o seu modo de vestir e de agir, tornando o rock não só um simples novo gênero musical, mas também um novo movimento cultural.
Contra o quê exatamente criticavam seus músicos?
Muitos, como o Pink Floyd, questionavam o conservadorismo, a repressão institucional e com ela, a sociedade, a guerra, a violência (por exemplo, o álbum “The Wall”). John Lennon pregava a paz e o amor; pedia pelo fim da violência e do preconceito (“Imagine”); Led Zeppelin e Yes incentivavam a busca de explicações místicas para a vida e impulsionavam um movimento mais humanista e de harmonia (“Close to the Edge”). Outros, como David Bowie, questionavam preconceitos de gênero no seu modo de vestir e até apontavam para questões ecológicas (“The Rise and Fall of ZigiStardust”). 
David Bowie. Fonte: SimaoPessoa
Espanta-me ver, hoje, bandas de rock n’roll fazendo exatamente o contrário. Já há muito tempo acompanhando shows e bandas e vivenciando o meio musical de rock em São Paulo, não pude deixar de notar o machismo irritante que os roqueiros masculinos pregam. É tão irritante que as mulheres, muitas vezes, são vistas apenas como meios de prazer. Bandas como Manowar, Velhas Virgens ou Kiss deixam clara sua posição.
Capa do Albúm Blow your Speakers
de Manowar. Fonte: DimensãoXis
Bem, normal! Machismo existe em qualquer cena musical e racismo e especismo também, mas me surpreende o movimento rock n’ roll se achar tão superior em ideias como tenho percebido. Ainda, o que dizer das mulheres que convivem neste meio e não só curtem, como cantam em alto e bom som músicas que depreciam seu próprio gênero!
Não estou generalizando! Existem muitos meios alternativos de rock que incentivam bandas femininas e o engajamento político. O movimento “Straight Edge”, por exemplo, procura incentivar o sexo por amor, o fim da violência e do machismo, o vegetarianismo e, portanto o fim do especismo, e a negação do uso de drogas (incluindo álcool). Outros movimentos, como o “Riot Girls”*, criticam duramente as posições preconceituosas dos roqueiros, relacionadas ao machismo e homofobia. Ainda, existem bandas que procuram incentivar a ecologia, como o “Green Day” e até a banda de metal melódico “Stratovarius”.
Simbolo do movimento
"Straight Edge".
Fonte: Tizer Deviant Tart
Não posso generalizar, mas ainda assim, critico duramente bandas que se sentem superiores, que criticam a sociedade, e que em seus shows apóiam o machismo, o uso de drogas e a violência. Não posso tolerar chegar em um show e ouvir homens falando de mulheres como objetos de prazer, xingando prostitutas como se elas não fossem seres humanos, apoiando rituais de magia negra que usam assassinatos de crianças para obter poder e que cultuam a violência, como se fosse muito bacana trucidar alguém!
Vamos parar com hipocrisia! Quão diferente do funk e das bandas de neonazistas (vulgo carecas) são exatamente esses indivíduos e músicos que pregam a morte e o assassínio? Quão diferentes deles são esses roqueiros que se sentem melhores que o outro gênero ou que financiam a matança de crianças comprando drogas na favela?

Banda do Movimento "Riot Girls".
Fonte: Tropicsof Meta
Músicas fazem muita diferença. Se não fosse assim, John Lennon não teria sido assassinado (filme “Os Estados Unidos contra John Lennon”). Então, deixo esta mensagem para aqueles que apenas se importam um pouco: se você escreve e canta sobre machismo, sobre homofobia, sobre o prazer de trucidar um animal, sobre satanismo e matança de virgens e crianças, sobre a escuridão, sobre a guerra e a tortura como sendo bacanas, pense duas vezes!
É mesmo esse mundo que você deseja criar e apoiar? Serão mesmo vocês tão diferentes daqueles grupos de ódio que vocês tanto criticam?
Paz e amor e continuo acreditando que as pessoas fazem o que fazem por pura ignorância.

* O movimento Riot Girl envolve mais bandas de punk e hardcore em seu repertório, porém considerei colocá-lo como parte de um rock n’roll mais genérico.

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