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Parto Orgásmico – Quando a Dor No Parto Vira Prazer

Nem todo parto gera dor. Alguns geram até prazer. Fonte

Desde crianças nós aprendemos que a dor do parto é a pior de todas. Nós vimos nas séries de televisão, nas novelas e filmes que as mulheres gritam, berram e gemem de medo e dor quando vão dar a luz e nós as vemos comumente cercadas por vários médicos (geralmente um homem), com máscaras e roupas cirúrgicas, em um quarto frio e asséptico e onde o companheiro, marido ou pai não tem espaço e espera aflito do lado de fora. Foi assim que aprendemos, foi assim que nos imaginamos no futuro de uma possível gravidez e foi assim que o parto tornou-se, em nossas mentes, algo hospitalar, emergencial e quase como uma doença, fazendo com que o Brasil chegasse ao assustador índice de 45% de partos cesarianos (tanto escolha das mães aflitas, como dos médicos, que foram criados dentro desta sistemática), fugindo da recomendação mundial máxima por país da OMS (Organização Mundial de Saúde) de apenas 15% - tornando o Brasil o campeão de cesáreas no mundo.
Estaria algo errado com a mulher brasileira? Será que nosso país possui uma porcentagem maior de mulheres que são inaptas de parir naturalmente, como as de outros países, fazendo com que tantas cesáreas sejam necessárias? Ou será que é mais plausível encontrar a resposta para este número alarmante de cesáreas na formação antiquada do corpo médico e hospitalar brasileiro, na propaganda anti-parto natural desencadeada pela publicidade e grande mídia e na formação patriarcal de mulheres (e homens), que são criadas para evitar conhecer seus corpos, vendo-se como fracas, frágeis e incapazes?


Conhecer seu próprio corpo: algo que a mulher evita por vergonha e repressão. Fonte

Eu comecei a me interessar pelas questões do parto não porque quis ter filhos ou porque os tive. Tudo começou em um curso de saúde coletiva, que fazia em meu curso de biologia. Uma das professoras era uma importante especialista em obstetrícia no Brasil e, ao invés de dar uma aula típica despolitizada, a professora começou a nos contar a história do parto no país e como aquele tema era importante para toda a população e não apenas para quem deseja ter filhos. Assim, ela começou falando da famosa episiotomia (um corte vaginal feito pelos médicos para aumentar a passagem durante o parto), tentando nos explicar como este corte não era baseado em evidências científicas, mas sim em uma velha história do começo do século XX (e apoiada pelos médicos homens da época) de que mulheres que dão a luz ficam com a vagina mais flácida do que o comum e, por isso, precisariam do corte para manter a abertura vaginal devidamente apertada, de modo que pudessem continuar a cumprir sua função como esposa e dar prazer aos seus maridos depois de se tornarem mães. Até hoje, após o corte, o ponto adicional dado para fechar a episiotomia é conhecido como ponto do marido.


A violência obstétrica acontece quando um direito da mulher é negado, como o direito a acompanhante. Fonte

Para mim, toda aquela informação foi um choque. Ela quis nos mostrar como as escolhas das intervenções praticadas durante o parto estão conectadas com questões de gênero e direito ao corpo da mulher. A episiotomia (em partos normais), a ocitocina artificial (para acelerar o parto), o impedimento de acompanhante junto à gestante durante o parto (direito dela por lei), a realização de cesárea sem necessidade médica (para acelerar o processo e baratear os custos do hospital), a retirada do bebê da mãe por horas, xingamentos sexistas durante o parto e até mesmo sentar na barriga da grávida para acelerar o processo (perigoso para a mãe e o bebê) são alguns dos exemplos do que é comumente chamado de violência obstétrica, algo infelizmente muito comum no Brasil (veja aqui o documentário “Violência obstétrica” para saber mais e informe-se!).
Hoje, tudo está mudando. Cada vez mais pessoas estão se conscientizando sobre os problemas de uma medicina enviesada e pouco científica e também sobre as questões de gênero que envolvem o parto. No Brasil, uma nova vertente de parto começa a surgir e tem mobilizado mais e mais mulheres (e alguns homens): o parto humanizado.


O parto humanizado está surgindo como forma de acabar com a violência obstétrica e tornar o parto uma experiência agradável. Fonte

Assim, para driblar este tipo de problema e o aumento da violência obstétrica, surgiu o movimento de renascimento do parto no Brasil, que foca na promoção do parto humanizado e nos direitos da parturiente (veja o documentário “O renascimentodo parto” - trailer abaixo). Com ele, certos segredos, certos tabus e certas velharias morais começaram a ser discutidos e para minha surpresa um deles começou a ser desmentido e está chamando a atenção: o fato de que nem toda mulher sente dor no parto.
Será? Será que seria possível que algumas mulheres não sentissem dor no parto, mas prazer? Não faz muito sentido, não é? Mas, é fato que algumas mulheres sentem orgasmos quando estão em processo de dar a luz e isto vai contra tudo o que aprendemos na escola, na mídia e nos boatos em geral, me fazendo até pensar na possibilidade de ter sido a opressão contra a mulher a responsável pela dor generalizada no parto, afinal quantas não são as caraminholas que a sociedade coloca na cabeça da mulher, que não fazem com que elas se sintam destituídas de seu corpo e estranhas para com ele? Além de sentir vergonha em um processo que é puramente sexual, mas colocado pela sociedade como algo santo e, desta maneira, livre de conotação sexual! Por fim, além das caraminholas, não há respeito pelo espaço da mulher no local do parto e até a posição em que a mulher fica durante o trabalho é desconfortável e pouco fisiológica.
Será mesmo? Será que em um mundo de mulheres livres (e homens também) a dor no parto seria mais exceção do que regra?

Parto orgásmico
Parto e ato sexual: algo que a hipocrisia e o preconceito querem esconder. Fonte


Sexo é algo tabu ainda para se falar, mas vamos imaginar uma situação tremendamente sexual como um parto. O parto é o fruto do sexo e é aquele momento em que fica claro que a vida só pode vir dele, mesmo que alguns fundamentalistas queiram esconder este fato com as histórias das virgens dando a luz. Então, imagine que você está dando a luz, em um contexto em que, você mulher, não só se vê mais conectada com seu útero e vagina, pois eles se movimentam e dilatam, mas também em um contexto de sociedade que te julga pelo que você é como ser sexual. Assim, na sociedade hipócrita, se um não quer, dois não fazem, mas a ideia perfeita de mulher é a mulher casta, assexual, princesa da Disney, que consegue arranjar um homem por estas qualidades, mas que, em um dado momento, faz sexo e tem que mostrar para a toda sociedade que é sexuada, pois se está grávida, isto fica evidente. Neste momento, começam os julgamentos e até auto-julgamentos e imagine todos estes sentimentos, olhares e apontamentos de dedos (mesmo que sutis), vindo à tona em um ambiente com várias pessoas estranhas, em que sua vagina está exposta a todos, em que você se sente mais vulnerável aos olhares? Elas têm pranchetas e conversam entre si. Imagine que elas podem te tocar para análise. Imagine que elas podem te julgar e falar coisas importunas e sexistas para você durante este momento de vulnerabilidade. Qual a  chance de sentir prazer neste ambiente?


Qual a chance de sentir um argasmo em um ambiente opressor como este acima? Fonte

 Imagine agora que você está em um espaço íntimo, com pessoas em que você confia, com pouca luz, com liberdade de movimentos. Imagine também que você, apesar das tentativas de dominação ideológica, é uma mulher descomplexada com seu corpo e com seu ser sexual e que não acredita que sexo seja pecado e se libera totalmente ao parto, como algo sexual. Neste caso, tudo muda!
Assim, de um lado temos uma mulher dando a luz em uma sala de hospital, com vários médicos, com drogas artificiais, com enfermeiros às vezes falando para ela ficar quieta, dizendo que é frescura, em uma posição desconfortável (uma das mais desconfortáveis para se dar a luz), cortes realizados sem seu consentimento, residentes olhando sua vagina (uma das partes que você considera mais íntimas), geralmente com uma porta aberta e visitantes passando e te olhando, uma luz forte e um frio de hospital típico. De outro lado, porém, seu companheiro ou marido está do teu lado, há somente pessoas de confiança, profissionais a postos para te auxiliar, mas sem invadir seu espaço, luz amena etc. Em qual situação a dor é menos provável?
Naquela em que há mais liberdade para a mulher, claro! Assim, o parto orgásmico e a sensação orgásmica da mulher que dá a luz é geralmente fruto desta situação, conhecida como parto humanizado. De fato, de acordo com os especialistas, o orgasmo é possível de acontecer fisiologicamente no parto porque os níveis de ocitocina (o mesmo hormônio do orgasmo sexual) estão altíssimos na mulher parturiente e a vagina e seus orgãos sexuais são amplamente estimulados. Além disso, ela está confortável com seu corpo, com seus direitos e consigo mesma em todos os sentidos, o que aumenta as chances de se ter um orgasmo no parto.


O parto orgásmico é fruto de um ambiente aconchegante e em que a mulher é a protagonista e não o cirurgião. Fonte

Claro que não é todo parto humanizado que gera orgasmo, mas esta é a explicação para o fenômeno, que não é tão raro assim como se pensa e possivelmente vá se ver aumentado no futuro, com a ampliação de liberdade da mulher e educação sexual (se a sociedade não decair). Assim, eu fico até curiosa para saber se este índice não estaria ainda mais aumentado em uma sociedade matriarcal (igualitária o.k.?) e que não considera e ensina a mulher que o sexo é mau, sujo, pecado etc.
Na Bílbia já se dizia que a mulher teria dor no parto, mas esta citação não me surpreende, já que a sociedade da época em que o Velho Testamento foi escrito não era lá flor que se cheire para as mulheres (ainda não é, infelizmente). Cabe agora pensar então, como era antes. Como era o parto antes, quando as mulheres eram adoradas e reverenciadas, quando ser mulher era sagrado em todos os seus aspectos (inclusive sexual) e que o parto também era sagrado e não um fenômeno médico cirúrgico masculino. Será que ele não era um tanto quanto orgásmico?
O parto é um ato político em que a mulher pode escolher ser protagonista ou não (salvo exceções em que a cesárea é necessária). Fonte

De fato, vamos pensar que hoje é muito bom saber que existe a cesariana para salvar casos de exceção e, obviamente, que não sou contra ela (quem seria?), mas ainda bem que hoje cresce mais e mais a coscientização sobre o parto normal e humanizado para nos fazer redescobrir o que o milagre do parto natural pode realmente um dia ser, principalmente em uma sociedade que respeita a mulher e sua força feminina. Afinal, o sexo frágil não é tão frágil assim como se parece, ele é forte e é guerreiro. Só não vê quem não quer!


Veja abaixo o trailer do Renascimento do parto (não deixe de assistir! O filme vai mudar tudo que você acredita!




Autora: Camila Gomes Victorino 




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